Escola Sem Partido e sua ideologia burguesa

Escola Sem Partido e sua ideologia burguesa

Inicio esta reflexão com a seguinte questão sobre alienação: O homem alienado não se percebe como parte de um mundo, pensa que possui algum poder e permanece apenas na aparência, negando a diversidade humana. Quando falamos de alienação, essa constitui-se em um problema difícil de se chegar à essência mais profunda do seu significado, pois sua compreensão está muito aquém dos conhecimentos, pois encontra-se impregnada de ideias conservadoras no cotidiano de todos nós. Todos somos alienados, alguns mais, outros menos, mas o que nos importa é entrarmos em contato com a nossa alienação e buscarmos descortinar o olhar que insiste em nos manter em estado vegetativo de ser político e social.
Um dos caminhos que nos permite descortinar esse olhar é uma boa formação. Essa é proveniente da família que educa e da escola que ensina; ambas contribuem para a formação de um ser social propositivo e que busque transformar a sociedade , tornando -a mais justa, humana, solidária e menos intolerante.
Como se faz a formação do indivíduo? É possível dizermos que, sem a apropriação das experiências passadas, sem acesso ao acúmulo da história e de seus desdobramentos, sem acesso ao processo educativo que o levem a refletir sobre as consequências dos fatos ocorridos, esse indivíduo não vai conseguir distinguir os fatos e tampouco ter uma postura perante a sociedade.
Nesse sentido, comungo com Saviani (1980) quando este nos possibilita a pensar que o ser social não se faz para pensar, sentir, querer, agir ou avaliar. É preciso aprender, o que implica o trabalho educativo, no entanto a atividade educativa não pode ser a única responsável pela produção do indivíduo, mas tornar-se o meio de empoderamento da humanidade. É necessário, pois, entendermos que o processo de educação não pode ser reduzido a “formar” pessoas para a sociedade, mas formar o ser social que visa transformar a sociedade.
Atualmente, a Associação Alemã de Professores defende que a edição crítica de “Minha luta” (no original “Mein Kampf”), de Hitler, seja ensinada nas escolas, pois conhecer o que se pregou e as suas consequências é um dos meios para que os estudantes não possam reproduzir o extremismo político. É preciso conhecer o passado, entender o presente e transformar o futuro. E esse processo se dá pela educação, se dá pelo diálogo entre professores e estudantes , que estimula a leitura, a pesquisa, a análise e críticas. Esse processo dialógico, a construção de um ser crítico e consciente do seu papel na sociedade, vai muito além da produção de bens e do consumo.
Em 2015, a ONU apresentou a intencionalidade de lançar uma campanha mundial contra a intolerância, o extremismo, o racismo e a xenofobia, valendo-se de jovens talentos. Uma das frases impactantes foi a do secretário-geral, Ban Ki-moon, que declarou: “Para entender o poder da educação, basta olhar como os extremistas a combatem” (14/08/2015).
Esse poder da educação é que contribuirá para uma sociedade mais justa e igualitária, mais humana, solidária, uma sociedade que nos permitirá enxergar nos nossos pares nós mesmos e não nos posicionarmos contra o outro. É, pois, na escola que os educando aprenderão que em uma sociedade não deve haver supremacia racial, que a homofobia deve estar apenas nas páginas de livros de história, que a mulher deve ser respeitada como pessoa na sua integridade, que a população indígena deve ser entendida como povo e como donos de suas terras. Enfim, esses temas têm que ser tratados nas escolas, seja na aulas de História, Sociologia, Filosofia, Artes, seja em quaisquer outras disciplinas que tratam da questão do Homem na sociedade e, evidentemente, do seu papel social.
Nelson Mandela , nos diz que “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”. Mandela nos deixa claro que é por meio da educação que a tomada de consciência que desencadeiam processos de transformação social. Nesse sentido, temos que ter clareza que pensar a educação solicita e compreendê-la como parte essencial no processo do crescimento da consciência social do indivíduo.
O estudante não é “uma folha em branco” como querem pregar atualmente. Paulo Freire nos deixou um grande legado no sentido de respeitar o estudante, quando afirmou “Ninguém ignora tudo, ninguém sabe tudo”, ninguém é ignorante de tudo, mas o analfabeto político não consegue entender essa questão. Por isso, Freire associava alfabetização à politização. No pensamento de Freire, a relação sujeito-sujeito e sujeito-mundo são indissociáveis. Como ele afirma (2002, p. 68), “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”
O que vemos com o Projeto Escola Sem Partido, por exemplo, é totalmente o contrário do que uma sociedade necessita. É uma educação que seja orientada pelo paradigma apenas da eficiência e ignora o ser humano, ou seja, deseja que o ser social apenas se torne um agente naturalizador da desigualdade, conforme o neoliberalismo tem na sua essência.
O que deseja esse pseudo Projeto Burguês, quando busca amordaçar o professor, por meios do autoritarismo, pois prega como uma das formas de impedir o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas é a negação à liberdade de cátedra e a possibilidade ampla de aprendizagem; explicita o não respeito ao princípio da laicidade do Estado, porque visa, no âmbito da escola, espaço público na concepção constitucional, à prevalência de visões morais/religiosas particulares. Nesse sentido, a Escola Sem Partido defende uma ideologia conservadora, que não permitirá ao estudante uma gama de conhecimentos, desrespeitando a diversidade cultural que se faz nos espaços escolares e contribui para a opressão. Isso é ideologia de classe da burguesa que busca determinar uma ordem social no Brasil. Isso é uma Escola de Um Único Partido, aquele que visa manter a ordem da opressão sobre os oprimidos.
Como é possível pensar num modelo de escola desta forma? Como podemos negar que conhecimento é construído de forma integradora e interativa? Conhecimento não é algo pronto e que deva ser apropriado pela memorização. Conhecimento é um processo de descobertas , de construção, de pesquisa de debates e nunca de um ato de copiar.
Essa escola, querem impor aos nossos jovens, tem como um princípio a pedagogia da exclusão. Não mudaremos nossa sociedade sem conhecer como foi construída, o processo educativo tem que ser um processo que possa intervir socialmente para caminharmos no sentido de uma sociedade livre.
O medo de determinados grupos é que a escola possa possibilitar conhecimento e colocar nas mãos dos excluídos a consciência crítica do porquê da pobreza e como ela é produzida por aqueles que desejam uma Escola Sem Partido. A escola deve ser local em que a pedagogia da esperança faça o contraponto com a pedagogia da exclusão. Ensinar é inserir-se na história: não é só estar na sala de aula, mas num imaginário político mais amplo.
O que a Escola Sem Partido deseja é a neutralidade ante os valores, o histórico, o mundo. Na realidade, esse pseudoprojeto reflete o medo que se tem de revelar o compromisso contra os homens, sua humanização, por parte daqueles que se dizem neutros. O compromisso é apenas com eles mesmos, com seus interesses individuais e de grupo e, por não ser um compromisso com a sociedade, tendem a assumir uma neutralidade impossível.
Precisamos dizer não à Escola Sem Partido, porque temos que buscar diluir as ações antidemocráticas, para que possamos atravessar a conquista dos direitos, e que lutemos por uma escola viva que não se torne um espaço que doutrine os jovens para serem intolerantes e alienados, que a escola não se torne um espaço para criamos os algozes de quem busca uma sociedade livre dos ditames da ditadura que querem impor. Que a escola possa ser o espaço livre na troca e na construção do conhecimento. Não vamos catequizar nossos jovens com ideias que apenas contribuem para o retrocesso. Nenhum professor “faz a cabeça” do estudante, mas possibilita que a vida tenha sentido para leituras, pesquisas e construção do conhecimento. É na escola que se tem formação e na família a educação.
Não podemos ver esse retrocesso acontecendo e nos calar perante a classe que sempre buscou dominar o Brasil, não podemos comungar com o que esse pseudoprojeto deseja, que é uma forma de censura, pois uma das ideias mais sem caráter pedagógico é a de fixar cartazes deixando claro qual cartilha o professor deverá seguir. Uma educação que não prima pela liberdade e pela honestidade é uma educação que visa à supremacia de alguns em detrimento de outros.

Prof.ª Ma. Solange Massari
Assistente Social
Vice-Presidente da APASESP

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